Os Maldonados
Teodósio Vesteiro e Torres (Trad. Afonso
Xabier Canosa Rodríguez)
I
Uma das mais singulares antinomias da Idade Média é o culto decidido e constante que os cavaleiros rendiam simultaneamente à religião de Cristo e à religião da Honra, que chegara a ser pouco menos do que um deus para os nossos maiores.
Perdoar as injúrias é um preceito cristão. Não tolerar (nem) a mais pequena, foi um preceito da cavalaria. Quando alguém se armava cavaleiro, o golpe que lhe dava o padrinho com a espada sobre os ombros significava que aquela era a última afronta que devia sofrer o dignatário. Isto sucedia no momento de jurar o jovem paladino morrer pela religião de Jesus.
Notório é quanto receosa se mostrou sempre a nobreza galega das suas honras e privilégios. A satisfação que tomou de uma injúria um cavaleiro dos Aldanas, constitue o objecto desta breve memória.
O feito celebrou-se então grandemente, como que foi origem dum ilustre apelido e de um brasão dos mais prezados.
Chegou a nós baixo a fé de Ozcariz Febrer, Pi Ferrer e outros escritores, quem lhe assignam a data de 839, reinando Afonso III. Ao referi-lo nós qual eles o referem, não podemos menos de protestar do anacronismo, pois Afonso III ainda não nascera em 839. Não faltará alguma outra circunstância pelo estilo, em descrédito da nossa história; mas esta, verdadeira em pouco ou em muito, serve para dar uma ideia do que eram os homens daquela idade.
Não sempre hão de ser feitos o objectivo da Musa do passado. Muitas vezes, mais do que cem feitos vale um símbolo.
II
Fernão Peres de Aldana, -a seguir a sentença dos geneaologistas, que deliraram mais do que Ovídio nas Metamorfoses- descendia de Teodorico, rei dos ostrogodos, por linha de um Suero?, que passou à Galiza e fundou casa solarenga e infanzona em Aldana, comarcas de Santiago.
As armas da família eram dois lobos de gules em campo de ouro, com o timbre Ave Maria.
Depois de quarenta e seis anos de fadigas servindo a Afonso III, cujo almirante (?) foi, Fernão Peres de Aldana sentiu-se enfermo, e em vista da inutilidade dos meios humanos para combater o mal, apelou ao socorro divino, invocando à que é salus infernorum.
Tal fé tinha o poderoso valemento da sua excelsa padroeira, que, a pesar do estado no que se achava, não vacilou em pôr-se em caminho para visitar o santuário de Nossa Senhora de Montserrat, segundo voto que oferecera.
A moléstia da peregrinação fez que piorasse, e fui preciso levá-lo numa maca à celebrada igreja, objecto das suas ânsias.
Nesta disposição iniciou a novena.
III
A afluência de gentes era imensa no santuário de Montserrat o dia 8 de setembro, festa do seu titular. Entre os forasteiros que acudiram aquele ano á famosa romaria, distinguia-se um, que pelo seu traje e servidume devia ser um grande personagem.
Durante os ofícios, coube-lhe estar junto ao leito do paciente Aldana, quem -dito seja de passo- não se trocava por cavaleiro nenhum daquela terra, julgando-se tão bom e nobre pelo menos como o que mais.
O estrangeiro, desejoso de ver melhor as cerimónias e prescindindo ele mesmo de todas, encaramou-se muito galanamente sobre a cama do infanção galego, que veio ficar como o demo baixo Santo Miguel.
Tamanho desaforo e tão indencente descortesia feriram Aldana no mais vivo: mas por respeito ao templo, houve de limitar-se a dizer ao ousado:
- Rogo-vos em cortesia, cavaleiro, busqueis outro sítio no que melhor podais estar, que vossos pés me incomodam.
- Não te incomodarão, se quem sou souberas - contestou o sobérbio.
- Mais cortesia me fizeras também tu, se quem sou souberas - replicou Aldana.
Longe de vir à razão, irrompeu o mal criado nestas frases:
- Nao me dês ocasião de pôr os pés de modo que os sintas.
Indignado então Aldana, exclamou:
- Cavaleiro: se esta divina senhora, a cuja devoção eu vim, me devolve a saúde, prometo-vos que vá tomar emenda e satisfação da injúria no seu santo templo recebida.
Acabou com isto o incidente.
Averiguando depois quem era o emperigotado personagem, resultou ser o duque de Normandia, sobrinho do rei de França.
IV
Aldana curou-se, e não tendo ainda recuperado as suas forças, presentou-se a Afonso III dando-lhe conta do sucedido.
Grande pena cobrou o rei, assim pela qualidade do ofendido como pela do ofensor, e desejando arranjar o asunto o melhor possível, enviou um embaixador com Aldana à corte do soberano francês.
Ante isto expôs a sua querela o nosso cavaleiro, causando profunda pesadume no ânimo do monarca, que estimava muito aquele, ainda que naturalmente estimaria mais ao seu sobrinho.
O duque de Normandia compareceu no estrado e houve de confessar a sua falta, da que pediu perdão ao afrentado galego.
Não se contentava Aldana com tão pouca cousa, e exigiu que o duque se postrasse em terra, para pôr sobre ele um pé, em desagravo da injúria de Montserrat, e segundo lei do Talion.
O ofensor resistiu-se a humilhar-se de tal sorte, e não tendo avença, decidiu o rei de França que as duas partes elucidassem a questão pelas armas em singular combate.
Assim se efectuou. O dia da lide apareceram ambos os dois cavaleiros de punta em branco, e romperam em mil pedaços as suas lanças à primeira envestida.
Seguiu a peleja, usando da pesada maça, até que Aldana derrubou de um golpe o Duque de Normandia, que rodou ferido pela areia.
Com a celeridade que presta a sede de vingança, saltou Aldana do cavalo e dirigiu-se ao seu adversário com a firme intenção de cortar-lhe a cabeça. Pero o rei interpôs a sua espada, e advertiu-lhe ao espanhol que satisfeito ficaria a sua honra, se o duque morria da ferida, como era provável.
O nosso herói abandonou o campo.
V
Quando o soberano francês dava por acabada a história, achou-se com Aldana, que voltava á sua presença demandando vingança.
Assombrado por aquele homem implacável e ansiando acabar de vez, ofereceu-lhe honras e riquezas a troco de uma honrosa transação.
Aldana observou que, sobrando-lhe tudo na sua casa não se molestara em ir por isso a casa alheia; e acrescentou que se retiraria a Espanha, não só queixoso do duque, mas também do rei.
Em tal ponto, este prometeu outorgar-lhe tudo o que lhe pedisse. Aldana pediu para o seu escudo um brasão de cinco flores de lis, já que os reis de França usavam só tres.
Comprometido o monarca pela sua palavra, contestou com estas que conservou a história:
- Je te las donne, bien qu'elles soyent maldonées. (Eu dou-tas, por mais que sejam mal dadas).
Explicam os tratadistas de heráldica o maldonées, não como referido a um dom que não se merecera, senão como dom arrancado por força maior, a despeito próprio.
Aldana então deu-se por cumpridamente vingado, e de tal vez benzeu a injúria que lhe oferecia uma reparação daquele género.
VI
Para memória do sucesso, Fernão Peres de Aldana e os seus descendentes tomaram o apelido Maldonado, e engadiram-lhe aos seus brasões cinco lis de ouro sobre azur.
A sua casa engrandeceu-se por entronques com as primeiras famílias, e a história registrou muitas vezes as façanhas de Aldanas e Maldonados nas nossas lutas com os sarracenos.
Um cavaleiro desta descendência, João de Aldana, obteve do rei Jaime de Aragão por prémio das suas proezas três coroas e uma espada de ouro sobre gules.
Assim se deduz das nossas crónicas a origem dos Maldonados e o das lises nos escudos espanhóis.
Teodósio Vesteiro e Torres
Madrid, agosto 1873.
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